Midia Tatica

:: Plataforma de acoes colaborativas em arte critica, midia independente e tecnologias livres no Brasil ::

Que venha a midia tatica!

Um dos primeiros eventos que catalizam o espirito desta rede de solidariedade midiatica que este ano completa 10 anos se chama Midia Tatica Brasil, ocorrido em marco de 2003, um festival de arte em rede, comunicacao independente, musica experimental, tecnologias livres e (re-)apropriadas, intervencoes urbanas etc, aonde uma serie de coletivos de Sao Paulo buscaram criar uma sinergia entre os processos coletivos e os espacos publicos, atraves da coletivizacao do esforco de producao do evento e ao mesmo tempo, re-significando os espacos tradicionalmente considerados artisticos. Era a primeira vez que se juntavam num unico ambiente, em salas chamadas de “ocupacoes”, radio ativistas, artistas, teoricos, universitarios, jornalistas independentes, codeiros linux e musicos experimentais.

O conceito de Midia Tatica, sob o formato de Laboratario de MÃidia, oriundo da holanda dos anos 90, adquire um novo vigor no Brasil ao encontrar um ponto comum para o encontro de ativistas de tecnologias livres, de midia independente e artistas com temas poliyicos e experimentais. A experimentacao sempre fez parte de uma cultura propria brasileira que, devido a precariedade e a energia criativa recombinadora, insuflava-se de gambiarras e reciclagens. No inicio dos anos 2000, o software livre no brasil emergia dos encontros techies ao sul – como o FISL (Forum internacional do software livre) – ou os primeiros telecentros em linux do Acessa Sao Paulo e se cristalizava na rede Metareciclagem sob a forma de uma metodologia de apropriacao social das tecnologias livres, com iniciativas diversas. Combinada com a rede do Centro de Midia Indendente que vinha de uma explosao de coletivos por todo o planeta, recem-criado na cidade, mais a experimentacao ativista de coletivos de arte que se consolidou posteriormente nas ocupacoes de moradia de Sao Paulo, como Prestes Maia, fazia daquele momento bem propicio a uma fusao explosiva, mesmo que temporaria.

“Apesar da dominacao dos monopolios dos meios, os projetos de midia independentes tem uma longa historia no Brasil. Durante a ultima ditadura nos anos 70 surgiram muitas publicacoes independentes chamadas a epoca de “imprensa nanica”, alem de zines, os samizdats e incontaveis revistas culturais contra o governo estabelecido, criando uma especie de contra-cultura. A partir dos anos 80 este movimento foi reduzindo gradualmente a um mercado “pop” de publicacoes em desaparecimento.”

Ricardo Rosas e Tatiana Wells, Que Venha a Midia Tatica! Manifesto Midia Tatica Brasil

“Midia tatica como uma pratica tem uma historia longa, e parece seguro predizer, um futuro ainda maior. Ainda assim, sua existencia como um conceito particular ao redor de um movimento social, ou mais precisamente, de uma rede auto-consciente de pessoas e projetos que ali se coalesceria, teve uma vida relativamente curta, muito confinada a primeira epoca da internet como um meio de massa (1995-2005). Durante aquele tempo Geert Lovink and David Garcia, dois ativistas/teoricos de midia holandeses, do coracao dessa rede, definiam Midia Tatica como:

O que acontece quando a midia “faca-voce-mesmo”, tornada acessivel pela revolucao do consumo de eletronica e expandidas formas de distribuicao (de acesso a cabos publicos e a internet) sao exploradas por grupos e individuos que se sentem atingidos ou excluidos de uma cultura mais ampla. Midia tatica nao somente para reportar eventos, ja que nunca sao imparciais, sempre participam e eh isso mais do que qualquer outra coisa que os separa da midia comercial”.

Felix Stalder, 30 Anos de Midia Tatica (30 Years of Tactical Media)

” O principio de tatica vem como oposto a estrategia, no sentido de nao efetuar um confronto direto com o rival, mas atraves de “taticas”, de modos de atuacao que minem as suas forcas e efeitos devastadores. O conceito deriva dos estudos de Michel de Certeau em “A Invencao do Cotidiano” e a definicao em si do artista plastico polones Krzystof Wodiczko (que ja esteve em Sao Paulo no Arte Cidade), criador de veiculos de aluminio para moradores de rua. O termo foi materializado nas series de manifestos (ABC da Midia Tatica, DEF da Midia Tatica), lancados na lista de discussao Nettime (www.nettime.org), por Geert Lovink e David Garcia. Na pratica, taticas sao “as tecnicas pelas quais os fracos se tornam mais fortes que os opressores”.

Geert Lovink e David Garcia, O ABC da Midia Tatica (The ABC of Tactical Media)

Se a Midia Tatica surge como nome comum e anonimo de um momento historico de luta no Brasil, em conexao com ativistas e teoricos holandeses e indianos, localmente buscava renovar o espirito transgressor dessas antigas formas de dissenso, como as publicacoes que pululavam nos anos 60 e 70, ou o teatro do oprimido e a pedagogia da autonomia, formas particulares de ativacao social critica por meio da expressividade, e educacao e a midia, debrucando-se sob uma longa tradicao de comunicacao e arte politica brasileira que teve que se fragmentar imagetica e fisicamente nos tempos da fato-dura.

Ao resgatar a arte em rede dos bracos do corporativismo digital, representado por mega-espacos patrocinados por bancos ou companhias telefonicas como Itau Cultural ou Oi Futuro, possibilitava-se tambem difundir as iniciaticas praticas livres, experimentais e dissidentes dos novos manipuladores de midias, seja o artesao digital bricoleur aos iniciantes nas comunidades gnu/linux, Vjs e performers criticos, atualizando as taticas midiaticas no brasil.

Ampliando as fronteiras entre os meios digitais, a internet mas tambem os processos sociais de rua e as politicas digitais, mobilizando pessoas de praticas e campos diversos em reunioes publicas e ambientes de dialogo permanente, o MTB tinha como objetivo (segundo seu Manifesto Que Venha a midia Tatica! de 2003): politizar as midias, a arte e as tecnologias inserindo a meme da tatica como modelo de (re-)apropriacao social.