Estão colocadas neste texto, idéias referenciais com as quais trabalharemos nestes próximos doze meses que restam para a finalização desta pesquisa. São a base teórica mais importante e que será constantemente abordada. As demais referências são vastas e não vale (e o tempo não permitiu) discorrer sobre elas. Esta pesquisa requer uma lapidação muito grande do ponto de vista de material de leitura, já que circulam pelas editoras e pela internet muitas e diferentes entradas nos assuntos a que ela se remete.
Escolhemos dialogar com a teoria crítica por entendermos que ainda não estão suficientemente esgotadas as análises que defendem sua superação, e dificilmente estas análises apresentam embasamento tão sólido e bem construído. Porém a velocidade das dinâmicas sociais nos permite inserir elementos capazes de aumentar o conhecimento sobre os diálogos, diferenças, acertos e lacunas deixados pelos teóricos da “Indústria Cultural”.
A idéia deste estudo é re:fletir1 a midia tática nas atuais condições de alguns postulados do moderno capitalismo. Pesquisar as condições da propriedade privada, das relações de produção e da racionalidade implícita no modo de operar e dominar deste sistema. Para isso, consideramos tomar o problema técnico e seus desenvolvimentos em uma determinada indústria como central para a análise a fazer.
Faltam aqui apontamentos que se referem a um estudo sobre a filosofia da técnica, que pretendemos abordar de três diferentes pontos de vista: Heidegger e o início de um questionamento sobre a relação arte-técnica e os fatores positivos ou negativos da relação com o homem; G. Simondon e os processos de individuação como forma de compreender o elo humano-máquina tendo como base as avançadas tecnologias de informação; e teorias sobre a cibernética e cibercultura, a fim de dar um panorama destas teses para perceber o que há de relação com o nosso objeto e quais os problemas que se apresentam desta perspectiva.
Faltam também referências mais explícitas as teorias sobre mídia tática. Isso deve-se a um erro de organização que não me permitiu buscar as fontes de maneira rápida a fim de coloca-las aqui. A maioria das discussões conceituais se dá em listas via internat e textos publicados em sites relativos. A ausência de uma prévia catalogação e organização destas referências não me permite explicitá-las .
Ponho-me a disposição dos membros da banca de qualificação para incrementar, anexar, desenvolver e melhorar o exposto neste texto, a fim de revelar uma posição mais detalhada do momento da pesquisa bem como os aspectos já estudados, e que não foram possíveis de serem postos aqui.
Paulo José O. Moreira Lara
22 de agosto de 2005 - Campinas
“Talvez seja porque estejamos vivendo de maneira nova as relações teoria-prática. Às vezes se concebia a prática como uma aplicação da teoria, como uma conseqüência; as vezes, ao contrário , como devendo inspirar a teoria, como sendo ela própria criadora com relação a uma forma futura de teoria. De qualquer modo, se concebiam suas relações como um processo de totalização, em um sentido ou em outro. (...) As relações teoria e prática são muito mais parciais e fragmentárias. Por um lado uma teoria é sempre local, relativa a um pequeno domínio e pode se aplicar a um outro domínio, mais ou menos afastado. (...) A prática é um conjunto de revezamentos de uma teoria a outra e a teoria um revezamento de uma prática a outra. (...) Quem fala e age? Sempre uma multiplicidade, mesmo que seja na pessoas que fala ou age. nós somos todos pequenos grupos. Não existe mais representação, só existe ação: ação de teoria, ação de prática em relações de revezamento ou em rede.”
(G. Deleuze in ‘microfísica do poder’ de M. Foucault – ed. Graal, 1984)
os meios táticos
A Mídia Tática pode ser definida tanto como um conceito
quanto como uma
prática. E veremos aqui, como nos aponta Deleuze, algumas
dinâmicas que
alimentam a atividade recíproca e complementar tanto de uma como
de
outra. Seu início remete as heranças deixadas pelos
movimentos sociais
europeus da segunda metade do século XX e sua
fundação é devido à luta
pela intervenção nas formas de comunicação
e exposição do problema da
disseminação do vírus HIV durante o governo
Reagan. Estão entre seus
fundadores, grupos de artistas e teóricos que viam nas novas
formar do
fazer artístico um reflexo daquilo que poderia vir a ser um
movimento
de oposição às pesadas formas de
dominação sobre a linguagem,
comunicação e movimentos sociais. Suas primeiras
experiências foram
intervenções de arte / tecnologia e mídia em
festivais e acontecimentos
(happenings) europeus no início da década de 90.
Calcada em conceitos como DIY (do inglês ‘faça
você mesmo’),
intervencionismo (happenings), copyleft, TAZ (do inglês
´Zona Autônoma
temporária) e usos e invenções de cotidiano, ela
tomou força com a
rápida disseminação de mecanismos
tecnológicos que propiciam operações
de oposição e questionamento em relação ao
status dos meios de
informação e artísticos.2
Os meios táticos são formas que integram, através
de operações por
parte de seus usuários, manipulações individuais e
coletivas de
características políticas, artísticas e
sócio-culturais. O intento
prático é a utilização dos recursos,
mercadorias, aparatos e técnicas
produzidos e distribuídos pela produção em larga
escala do capitalismo
industrial para fins de oposição e alternativa ao status
quo da
sociedade controlada por mediatizações. As
ações são herdeiras de
idéias e posições de grupos políticos e
artísticos chamados de
“contraculturais”.
táticas e estratégias
A analogia com a máquina militar não é à toa. Como veremos a seguir há uma oposição entre tática e estratégia, esta última visando lógicas operacionais para obtenção de um resultado final, enquanto as primeiras têm a ver com os processos de integração entre sujeito e aparato.Visam ações efêmeras, batalhas e intervenções espaço temporais.Formas como a pirataria e a intervenção estão no campo relacionado com os meios táticos. O campo de batalha se delimita portando, em relação a intenção e aos processos de manipulação dos meios empregados para as ações.
O termo tático é apropriado a partir do historiador francês Michel de Certeau, para designar a oposição que revela a característica do movimento. Certeau coloca questões sobre como criar-se, “deslocando a atenção do consumo supostamente passivo dos produtos recebidos para a criação anônima, nascida da prática do desvio no uso destes produtos”3. Interrogando-se “sobre as operações dos usuários, supostamente entregues à passividade e à disciplina”, Certeau considera que o importante não é a cultura erudita nem a dita popular, mas sim a “proliferação disseminada” de criações anônimas, utilizando “maneiras de fazer” que não se capitalizem, ou seja, que não se submetam à lógica das relações mercadológicas. Para Certeau, enquanto a estratégia é capaz de “produzir, mapear e impor”, as táticas podem “utilizar, manipular e alterar”. A questão para Certeau é a análise de o que e como se manifestam a produção dos que “consomem” ou “usam” os produtos materiais e culturais disseminados entre grupos e indivíduos, o que estes “fabricam” a partir do que recebem:
“A fabricação que se quer detectar é uma produção, uma poética – mas escondida, por que ela se dissemina nas regiões definidas e ocupadas pelos sistemas da ‘produção’ (televisiva, urbanística, comercial) e porque a extensão sempre mais totalitária desses sistemas não deixa aos ‘consumidores’ um lugar onde possam marcar o que fazem com os produtos”4
Certeau nos apresenta uma dicotomia entre tática e
estratégia, que
servirá como suporte da criação do conceito de
mídia tática. A idéia de
tática se articula com práticas de focos,
resistências, levantes,
surpresas, enquanto a noção estratégica é
um cálculo operado pela idéia
de um todo, homogêneo e modelado totalitariamente que apartam
sujeito
de objeto.
O conceito de estratégia está próximo do
inventário crítico do status
da técnica na sociedade feito por Adorno e Horkheimer, durante
seus
esforços para compreender a Indústria Cultural. As
relações com uma
exterioridade distinta são características tanto de uma
quanto de
outra. No primeiro caso isola-se um “sujeito de querer e poder” de um
“ambiente”, e no segundo a técnica está externa em
relação à lógica do
conteúdo de um meio, seu objeto.
A tática se define pela relação que tem com o
ambiente, ou seja, “só
tem por lugar o outro”. Ela aparece como um movimento no qual o fraco
tira partido do forte e das forças impostas e que lhe são
estranhas. No
caso dos meios táticos, o que os caracteriza é justo o
imperativo de
seu oposto. São potencialidades designadas por aquilo que
não fazem, ou
melhor, são apropriações de produtos operadas no
sentido de oposição em
relação a um fato comum (estratégias).
Porém esta dicotomia pode encontrar resistências se
pensarmos na
técnica, não como neutralidade, passível de uso e
apropriação para
finalidades decididas por seus operadores, mas encadeada com um aparato
cientifico que a torna ideologia e impõe
conseqüências materiais e uma
nova forma de dominação, subjetiva, sutil e precisa.
O problema se coloca na verificação do sistema elaborado
por de
Certeau, quando trata-se de centrar as ações e
operações nos meios, ou
seja, quando se pretende abrir espaço para as
manifestações de
liberdade e autonomia dentro do aparato tecnológico criado,
vigiado e
utilizado pelo capital em suas diversas formas.
A mídia tática só se realiza graças as
operações de oposição realizadas
dentro do desenvolvimento técnico do sistema capitalista de
produção e
a partir das forças produtivas da Indústria Cultural,
transformadas em
mercadorias e cada vez mais integradas e distribuídas para
pessoas e
grupos.
Por isso cabe analisar algumas teorias sobre o desenvolvimento da
técnica na modernidade e verificar quais dilemas a estrutura de
Certeau
pode encontrar quando se trata de tentar inserir no aparato
tecnológico
altamente desenvolvido, táticas e tentativas de
apropriação em
mecanismos que historicamente vêm servindo de suporte ao poder e
as
estratégias.
indústria da informação
A indústria da informação, não pode ser
considerada somente do ponto de
vista da transmissão de conteúdo. Erradamente ela vem
sendo vista e
utilizada como sinônimo de mídia. Deve-se a forte
penetração das idéias
de Adorno e Horkheimer, uma junção anacrônica entre
meios e comunicação
de massa. Para estes autores, este elo entre indústria, aparato
maquínico e capital fazem com que a chamada “indústria
cultural” fosse
imutável e opressora pelos seus próprios mecanismos
racionais de
produção e transmissão. Juntou-se a esfera da
produção capitalista e a
sub valorização de seus conteúdos num sistema
integrado chamado “meios
de comunicação de massa”. Porém a indústria
da informação não produz
somente o que é veiculado em grandes corporações e
redes de
comunicação, e como qualquer indústria, torna
disponíveis mercadorias
tanto materiais como culturais. A indústria da
informação não é
produtora de conteúdo, mas sim um sistema de encadeamento de
meios e
fins, sendo os meios as formas e mecanismos de produção,
armazenamento,
reprodução e transmissão de mensagens; os
aparelhos e interfaces
responsáveis por troca de conteúdos de caráter
cultural.
A indústria da informação é
responsável também pela fabricação dos
meios técnicos que à sustentam. As grandes redes e
empresas de
comunicação não sobrevivem sem as forças
produtivas da indústria da
informação. Gravadores, computadores, câmeras
fotográficas, mesas de
edição, suportes armazenadores de
informação (Compact Discs, Discos
Rígidos, Mini Discs), câmeras de vídeo, microfones,
transmissores e
retransmissores são o pilar tecnológico que mantém
ativas as indústrias
de comunicação, seu poder e influência.
Porém estas forças produtivas são passíveis
de usos e operações fora
das empresas de comunicação. Tornaram-se mercadorias e
objetos de
consumo passiveis de apropriação por parte de grupos e
indivíduos de
diferentes inclinações políticas e culturais.
Trata-se do ponto
levantado por Certeau, o modo de um tipo de “fabricação”
realizado
autonomamente, onde o que importa são as “maneiras de empregar
os
produtos impostos por uma ordem econômica dominante”. Esta teoria
“supõe que (...) os usuários ´façam uma
bricolagem’ com e na economia,
usando inúmeras e infinitesimais metamorfoses da lei, segundo
seus
interesses próprios e suas próprias regras”5.
O quadro abaixo mostra as conexões do conceito de tática com a aplicação nos meios de produção de informação. Esta pesquisa pretende captar essas relações e estudá-las de um ponto de vista do conhecido dilema que a relação técnica-sociedade nos aponta6.
CARACTERÍSTICAS DA TÁTICA
EQUIVALENTE NOS MEIOS DE INFORMAÇÃO
PANORAMA
SÓCIO-CULTURAL RESULTANTE
MOBILIDADE
FERRAMENTAS TECNOLÓGICAS
PORTÁTEIS DE TRANSMISSÃO
INVERSÃO DE FLUXOS ESPAÇO / TEMPO
TIRAR PROVEITO DA OCASIÃO
MANIPULAÇÃO
DISSEMINADA
LEVANTE / AUTONOMIA
TEMPORARIA
OPERAÇÃO DO USUÁRIO / CONSUMIDOR
IGUALDADE ENTRE TRANSMISSORES E RECEPTORES
FLUXO MULTIDIRECIONAL
DE MENSAGENS
MUTAÇÃO /METAMORFOSE
REPRODUÇÃO, RECOMBINAÇÃO, MIXAGEM,
PLÁGIO, RESIGNIFICAÇÃO, ´PIRATARIA`,
PRÁTICAS DA SUCATA
APROVEITAMENTO DOS APARELHOS OBSOLETOS, METARECICLAGEM, GATOS
(ELETRO-ELETRÔNICOS)
‘CAMELÔS’, REAPROPRIAÇÃO E
EXPROPRIAÇÃO DE SISTEMAS ELETRO- ELETRÔNICOS
(gambiarras)
A questão é se este equivalente nos meios é viável do ponto de vista do imperativo técnico. Se, a partir da atual condição do desenvolvimento técnico científico ligada as funções de especialização, racionalidade, eficiência e com base econômica vinculada ao capital e seu modo de produção, a busca por uma nova condição social tem como rumo este tipo de apropriação. Caso se verifique a força de oposição nestes usos e operações, o que é colocado em questão em relação as atuais formas de dominação por parte dos mecanismos estratégicos? Qual a influência desta ação tática nos meios no que se refere a continuidade das atuais relações de produção, de propriedade e da racionalidade que se abate em diversos ramos da produção material e de significado?
Problema: A sociedade inclina-se cada vez mais para uma
tendência
mediatizante e tecnocrática. O avanço tecnológico,
embora encontre
oposição dentro de sua própria dinâmica de
desenvolvimento, empurra a
todos, cultura, sociedade, política, para um campo onde as
relações de
força são dadas a partir de fundamentos
técno-estéticos. As táticas de
oposição, enquanto vislumbrarem somente o uso, ou a
apropriação de
técnicas, inventos, mecanismos dominantes, perde o foco de um
imperativo anterior, o de que o elo técno-científico foi
criado e é
desenvolvido não só para utilização, mas
também como forma de dominação
subjetiva, feito para legitimar uma posição
política que responde a
questionamentos de oposição com argumentos que
encontra-se fixados em
seus próprios pressupostos.
A oposição tática pode incorrer no erro de servir
de impulso e
legitimação para a continuidade do modelo industrial de
dominação
técnica e cultural. Pois se seus questionamentos não se
aterem a
problemas como os modos de produção, propriedade privada
e uma
reinvenção e politização da técno
ciência, há o risco de, como
supuseram alguns, servir como “cano de escape” para o processo de
dominação, e se tornar alimento para a autofagia do
capitalismo.
A idéia deste trabalho é refletir o conceito da
mídia tática com
algumas idéias da teoria crítica e estudar suas
perspectivas de mudança
a partir dos meios tecnológicos, tendo em vista as dificuldades
apontadas por teóricos que viam na racionalização
de diversas esferas
da vida, uma forma velada de dominação, para o qual
contribuem
decisivamente o aparato maquínico e as
especializações das funções
impostas por uma nova conduta frente a um novo capitalismo.
O elo técnico científico, responsável
pelo
desenvolvimento
tecnológico, está em pleno avanço. Apesar de serem
indispensáveis para
as táticas de resistência, já que estas atuam em e
sobre eles, o
postulado do esclarecimento é o que determinou sua
vitória sobre o mito
e a conseqüente transformação da sociedade em um
domínio técnico
baseado em cálculo, previsibilidade, utilidade e
eficiência.
A idéia mais forte e radical sobre essa concepção
da modernidade está
colocada nos escritos de Adorno, e tem na “Dialética do
Esclarecimento”
seu marco fundamental. O esclarecimento opera para si, relegando os
fins pelos meios de suas técnicas, constituindo uma
integração total:
uma espécie de autonomização absoluta. A
posição dos homens no mundo e
sua luta pelo entendimento no lugar da superstição, tomam
a técnica
como essência e centra seus métodos,
operações e instrumentalizações no
motor que domina a sociedade e a civilização. Deste ponto
de vista, o
esclarecimento destrói o encanto dos mitos tornando-se
totalitário;
resolvendo-se na própria mitologia.
O sistema criado pela teoria crítica, por sua vez, como
“crítica da
filosofia sem abrir mão desta” circunscreve um problema que se
torna,
da mesma maneira que sua concepção sobre o
esclarecimento, uma
resolução dentro de sua própria idéia. Para
esta perspectiva as
resistências tornam-se argumentos da dominação, e
não há espaço para
conceitos esclarecidos de oposição, pois estes se
utilizam de uma
lógica discursiva dominadora.
Na base do desencantamento está a ordem prática da
filosofia e da
ciência. A libertação das potências
míticas da natureza ou, nas
palavras de Weber, o “desencantamento do mundo”. Tem sua origem na
mitologização da ciência positiva e trasfigura-se
num conceito e num
movimento real da sociedade em direção a um sistema de
integração
total. Para estes teóricos, todas as esferas convergem para o
domínio
da moderna razão. Os especialistas são censores que fazem
com que “o
cerceamento da imaginação teórica prepare o
caminho para o desvario
político”7, impossibilitando uma oposição em
razão da ingerência
interna e externa de censores legitimados como representantes do
esclarecimento pela obediência à seus mecanismos de
controle absoluto.
No que concerne a nossa problemática, esta
materialização (recaída)
do esclarecimento em métodos, normas e operações,
viabiliza a
corporificação de cálculos,
codificações e quantificações em
operações
maquínicas, que se inserem em várias esferas da
ciência. A catalogação,
a normatização e o estreitamento das variáveis
possíveis de ação são
formas da inserção da racionalidade em técnicas,
mecanismos e aparatos
de aplicação social. Os meios técnicos da
indústria da informação não
são mais do que isso.
A analogia mais forte da idéia de “integração
total” no que se refere a
indústria da informação está na
criação da máquina mais completa de
armazenamento, produção, reprodução,
recepção e transmissão de
informação. Em 1948, Shannon8, sustentado por disciplinas
como a
matemática e a física, cria uma teoria na qual a
informação é traduzida
em códigos e quantificada, facilitando assim seus processos de
comunicação. O desenvolvimento desta teoria, reduz
praticamente todas
as formas de transmissão de conteúdo sensitivo e
comunicacional à uma
técnica de manipulação de seqüências de
dígitos binários. A
corporificação e aplicação desta
técnica levaram a possibilidade do seu
desenvolvimento a criar máquinas individuais de processamento de
informação, da qual a mais conhecida, completa e
integrada é o
computador.
O computador é o mais claro exemplo de aplicação científica que, iniciado como propósito para guerra, tornou-se, através da indústria, uma das mercadorias mais importantes a serem largamente difundidas por sua importância no aspecto da mediação do usuário com as esferas políticas e sócio-culturais. Hoje em dia cria-se em torno dele as perspectivas de novas formas e linguagens que envolvem arte e política.O computador é uma máquina que obedece a códigos específico e corretos, cabendo perguntar se existe possibilidade de autonomia e criação a partir de um instrumento tão fechado e desconhecido internamente pela grande parte de seus usuários.
Baseando-se na assim chamada Teoria da
Informação
(TI), Waren
Weaver diz que “Poder-se-ia estar inclinado a pensar que os problemas
técnicos envolvem apenas os pormenores de
construção de um sistema de
comunicações, enquanto que os problemas de
semântica e eficácia
abrangem a maior parte, senão todo o conteúdo
filosófico do problema
geral da comunicação” e acrescenta “(...) o significado e
a eficácia
são inevitavelmente restringidos pelos limites teóricos
de precisão na
transmissão de símbolos. Mais significativo, ainda,
é que a análise
teórica do problema técnico revela que este se
justapõe, mais do que se
poderia suspeitar, aos problemas de semântica e de
eficácia”9.
Considerando que as máquinas de informação
são instrumentos do
esclarecimento e que, como diz Hans Magnus Enzensberger, “necessitam de
pessoas esclarecidas mesmo quando se trata de sujeitá-las”, vale
indagar sobre a qualidade subjetiva que pode e quer-se impor nos e
através dos mecanismos e meios. A utilização do
mito pela resistência,
defendem Adorno e Horkheimer, é sintoma do esclarecimento, e as
multiplicidades se resumem a cálculos e padrões nas
escalas deste. A
volta do esclarecimento no mito converte-se em objetividade e
forçam a
padronização das práticas, experiências e
condutas da vida cotidiana.
Para Hans Magnus Enzensberger, porém, o esclarecimento é
um pressuposto
do que denomina “indústria da consciência”. Este
pressuposto somado ao
desenvolvimento material faz com que esta indústria entre em
contradição com a maneira pela qual ela vem operando
historicamente e
permite a ele apontar críticas ao puro “inventário
crítico do status
quo” redigido pela teoria da Indústria Cultural.
Ele argumenta que, acostumados a encarar a consciência como o
último
refúgio do sujeito, o homem esclarecido não admite a
tombada da
consciência e o fato de que não se é senhor dela.
Enzensberger recorre
ao argumento marxiano contido em “A ideologia Alemã”10 para
apontar que
desde que o professor, o padre e o mestre perderam o espaço da
transmissão tradicional e carismática de conteúdos
culturais para um
sistema industrial reprodutor de idéias, a consciência
deixa de ser
algo “óbvio, opaco, invisível”. Só a partir do
desenvolvimento
industrial dos produtos e meios da indústria da
consciência, é que se
verifica o campo político de batalha entre homens esclarecidos,
mesmo
quando esta as “trata de sujeitá-los”.
Diferentemente de McLuham, Enzensberger se propõe a analisar os
meios
como totalidade (sistema integrado) e não do ponto de vista de
novas
invenções ou inovações tecnológicas
inseridas em tal sistema
industrial. A indústria da consciência é
essencialmente uma indústria
de mediação, derivação secundária e
terciária, infiltração e
multiplicação daquilo que ela não pode produzir: a
cultura. Esta é
ignorada pela indústria e à ela se reserva um lugar
isolado, posto de
lado. Esta crítica atinge diretamente aos ideólogos da
“indústria
cultural” que para Hans Magnus “torna esse fenômeno (a cultura)
inofensivo e obscurece as conseqüências políticas e
sociais resultantes
da intermediação e transformação industrial
da consciência”11. Com
isso, pode-se pensar em um fenômeno industrial que carrega uma
contradição em seu modo de operar. A partir destes
pressupostos,
abre-se um campo de conflito entre a cultura (matéria prima da
indústria) e o modo de produção que domina a
esfera de reprodução
social da “consciência”.
Um erro em que incorrem os teóricos da Indústria
Cultural, é o de que,
uma forma de produção deste caráter, seria
similar, em todos seus
aspectos, a forma de qualquer indústria de bens materiais. A
indústria
da consciência difere-se das demais justamente, pelo fato de sua
mercadoria e produtos não terem a mesma função
social das mercadorias
em geral. Em texto de 1962, Enzensberger argumenta: “Nos seus ramos
mais evoluídos, ela nem trabalha mais com mercadorias; livros e
jornais, quadros e fitas gravadas são apenas seus substratos
materiais,
que se volatizam sempre mais com a crescente maturidade técnica,
desempenhando papel econômico destacado somente em seus ramos
mais
antiquados, como as editoras”12. Cabe neste ponto um diálogo com
Enzensberger no sentido de argumentar sobre aqueles “substratos
materiais”. Os suportes materiais, a época em que Enzensberger
redigiu
seu texto eram mais tímidos e sua importância menos
considerada. Esta
questão nos aponta para uma discussão sobre a
função do suporte. O
livro é diferente de um Compact Disc, por exemplo. O
conteúdo do livro
são átomos de matéria impressos sobre a folha. A
matéria prima do CD é
a informação. Ela permite ao operador que grave, regrave,
armazene,
transmita e modifique o conteúdo sem prejuízo do suporte.
O que não
pode acontecer com o livro. No caso do computador torna-se ainda mais
delicada esta classificação. É uma força
produtiva, pois insere-se
trabalho sobre ele que pode vir a gerar produto. É um grande
suporte
armazenador de diversas linguagens e funciona como meio de
comunicação
e informação, podendo ser utilizado como auxílio a
quase todas as
profissões correntes.
A teoria de Enzensberger, em suma, apela para o poder mobilizador e
às
potencialidades destas forças produtivas. Para ele toda a
investida nos
meios é uma forma de manipulação, daí a
criticar as posições da
esquerda que encontram na tese da manipulação o atraso e
a não
compreensão do significado do sistema dos meios
eletrônicas na
sociedade.
Suas propostas para a apropriação dos meios
são
resumidamente:
::Igualdade entre emissor e receptor,
::Programação de conteúdo feita através de
uma descentralização de
cargos e funções, ::Interação total dos
participantes do processo
político envolvido pelos meios fazendo do sujeito um fator de
produção
e reprodução política
::Produção coletiva
::Auto organização
O diálogo com Hans Magnus nos abre portanto uma outra possibilidade diferente da apresentada por de Certeau. Enquanto Certeau foca na cultura do consumo e no uso ou operação do sujeito, Hans Magnus foca sua base na potencialidade política, defendendo a apropriação e a manipulação como forma de atuação dentro das relações de poder e do modo de produção.
Dentro da perspectiva da teoria crítica o elo mais
interessante a se
fazer com vistas a uma contribuição de ambos os lados da
contradição,
parecem ser com os escritos de Marcuse.
Sendo o ser um fator e parte integral do progresso técnico,
interessa
avaliar o modo de produção como “totalidade dos
instrumentos” na sua
forma de moldar as relações sociais. Significa dizer que
pode-se
encarar o aparato tecnológico como um organizador, perpetuador
ou
modificador daquelas relações. Um fato para o qual
Marcuse aponta é o
de que o aparato remodela constantemente aqueles a quem serve. O poder
tecnológico tem a capacidade de influir na racionalidade dos que
atinge. Isto é base para sua concepção de que,
mesmo em uma sociedade
unidimensional, onde a crítica perde seu poder devastador por se
encontrar subjugada pelo aparato técnico, abrem-se perspectivas
para
novas formas de visões e atuações adaptadas de
oposição.
Calcado nas teorias de Weber, Marcuse aponta a inserção
do indivíduo no
aparato montado – tanto para o seu bem estar quanto para a
aquisição do
lucro capitalista – como forma de dominação inserida no
seu modo de
vida. Se, lidar cotidianamente com os preceitos, regras e normas
advindos da racionalidade já mostra a inserção do
homem em uma nova
dominação, o desenvolvimento técnico e
científico converte-se em
ideologia e indica formas de dominações materiais. O
campo do agir
racional com respeito a fins se mostra dominante, e o desenvolvimento
das forças produtivas como continuidade e
perpetuação das relações de
subordinação do sujeito ao aparato. “Hoje a
dominação se perpetua e se
estende não apenas através da tecnologia, mas enquanto
tecnologia, e
esta garante a formidável legitimação do poder
político em expansão que
absorve todas as esferas da cultura.”13
A legitimação do poder e da dominação,
portanto se dão no âmbito da
esfera crescente do agir racional com respeito a fins. A razão
técnica
se mostra a forma mais eficaz, através de seus métodos e
conceitos, de
fazer com que “a dominação da natureza permaneceu
vinculada a dominação
do homem”14. A racionalidade tecnológica se infiltra no reino do
pensamento e dá as várias atividades intelectuais um
denominador comum.
Elas também se tornam uma espécie de técnica, uma
questão de treino em
vez de individualidade, pedindo um especialista ao invés de uma
personalidade humana completa.
Marcuse não se limita a fazer o diagnóstico desta
sociedade, mas
apresenta a proposta de uma mudança no rumo do progresso que
afetaria
os postulados da ciência e altera a continuidade de uma sociedade
dominada pela legitimação do aparato técnico.
Sua crítica à sociedade onipresente e unidimensional o
faz perguntar
pelo valor da arte como forma e importância de
oposição. Analisa a
decadência das linguagens tradicionais como já absorvidas
pelo poderio
de uma sociedade e observa nos novos (décadas de 50 e 60)
movimentos
sócio culturais uma reação àquela sociedade
advinda daquele resultado
da entrada da tecnologia sobre a vida.
Marcuse vê nas linguagens artísticas da década de
60, uma das últimas
formas de oposição, já que a liguagem tradicional
há muito foi
absorvida pela sociedade onipresente. “A arte pode cumprir sua
função
revolucionária interna somente se ela própria não
se torna parte de
qualquer establishment, inclusive o revolucionário”15 Há
uma crença de
que a partir da construção de novas bases para o
progresso, uma técnica
inteiramente nova e a arte como modeladora de uma nova sociedade,
abre-se possibilidade para que a era da barbárie “não
deva continuar
para sempre”. Só a partir da arte como ilusão se
constrói uma nova
realidade. Marcuse aponta elementos como a “sensualidade”, “instintos
vitais” e “transcendência” como necessários para a
transformação da
“sociedade em uma obra de arte”. (...) a arte como tecnologia e como
técnica também viria a implicar a emergência de uma
nova racionalidade
na construção de uma sociedade livre, isto é, a
emergência de novos
modos e novas metas do próprio progresso técnico”16
A questão é que em uma sociedade em que as
relações políticas,
culturais, sociais e econômicas estão sendo feitas cada
vez mais
através de mediações, e mesmo que estas
mediações não signifiquem
representações, mas sim uma relação com
mecanismos técnicos de
produção, recepção e transmissão de
informações, a importância do
manejo e da manipulação técnica de instrumentos e
linguagens torna-se
um poder acima de todos os outros. A interface, como mecanismo
técnico
“operador de passagem” passa a ser o elo entre o sujeito e o objeto.
Qual é a importância dos mecanismos do agir racional com
respeito a
fins, quando se trata de inserir conteúdo estético ou de
estranhamento,
nestes meios de relações sociais?
marx e weber
Karl Marx e Max Weber serão as bases estruturais que
recorreremos a
fim de compreender da onde partem todas as percepções dos
fenômenos
técnicos acima descritas. Ambos concentram conteúdo
passiveis de
diálogo e complementares, sendo imprescindível uma
pesquisa sobre suas
concepções a fim de entender sobre o avanço das
maquinarias de
produção, e tecnologia bem como suas
conseqüências sociais e
alternativas apontadas.
Os procedimentos técnicos e organizacionais da grande
indústria estão
intrinsecamente ligados ao desenvolvimento dos processos de
racionalização do qual o moderno ocidente é
refém. Tanto o aparato
tecnológico como a lógica de funcionamento
burocrática, contribuem
decisivamente para processos de padronização,
especialização e
controle. Neste ponto confluem as teoria de Marx e Weber que
diagnosticaram neste modo de produção a
aniquilação das
particularidades, individualidades, da ideologia, moral e
religião e a
subordinação da ciência ao capital bem como a
retirada da naturalidade
da divisão do trabalho. O esclarecimento, como modo de pensar e
fuga
das trevas e do desconhecimento, toma aspectos materiais nos modos de
produção industriais e converte-se em ideologia, com
conseqüências para
a política, cultura e artes.
Em contraposição ao conceito de consciência como
“cidadela que pudesse
resistir ao cerco do cotidiano”, Marx já argumentava que
são as
condições materiais e de reprodução da
humanidade que determinam o
estágio de consciência encontrado em cada época.
Sob o capital todos os
sistemas de engrenagem social, ocupam funções
específicas, e a
tecnologia, entendida como força produtiva desenvolvida para a
exploração do trabalho e racionalizadora dos processos de
produção e
aguçadora da divisão do trabalho e implementadora de
determinado modo
de produção tem que ser enxergada do ponto de vista de
sua realização
como capital. As forças produtivas para Marx não podem
ser consideradas
autônomas e isoladas frente as relações de
produção capitalistas. Os
argumentos contra a neutralidade da técnica no capitalismo
advêm de
conceitos como o de subsunção e derivação.
A técnica, para Marx é vista
de forma fragmentária e sua análise é
inconcebível se tomada somente em
si. O fenômeno tecnológico, ligado ao desenvolvimento das
forças
produtivas, proporciona além do seu acúmulo,
relações de produção de um
novo tipo.
As máquinas, para Marx, não são mais do que uma
força produtiva, porém
diferem completamente da “ferramenta” ou instrumento de trabalho do
trabalhador individual. A máquina, vinculada ao processo de
produção
capitalista, assume um manto técnico e científico a fim
de manter a
subsunção17 do trabalho ao capital, ou seja,
técnica e ciência, em
função do capital, materializam-se em
exploração para extração de mais
valia. O ponto em comum com Weber e outros analistas é a radical
transformação da produção e
utilização destas máquinas quando da
separação da produção doméstica,
individual ou em pequenas unidades na
concepção de máquinas como forças
produtivas industriais de propriedade
do empresário e utilizadas de maneira a extrair, a partir do
trabalho
nelas colocado, ali o lucro, aqui a mais valia. Na
produção capitalista
clássica, Marx e Engels enxergam a utilização da
maquinaria como um
controle autocrático cujo ponto central é a
autonomização dos
instrumentos de trabalho. Isso tem como efeito o aumento do consumo de
mercadorias, a baixa no custo da produção, a
criação de maior demanda
por produtos industrializados e a desvalorização da
força de trabalho18.
Aliada a divisão do trabalho, a maquinaria
(concentração de
instrumentos de trabalho) provoca unilateralidade e dependência a
um
processo imposto ao homem e que o fragmenta. A última
metamorfose do
instrumento de trabalho no processo de produção de
capital seria um
sistema automático de máquinas, no qual o trabalhador
seria um
"acessório consciente".
“A máquina (vinculada ao processo de produção do
capital) já não tem
nada em comum com o instrumento do trabalhador individual. Distingue-se
por completo da ferramenta que transmite a atividade do trabalhador ao
objeto (...) a atividade pertence mais a máquina, ficando o
operário a
vigiar a ação transmitida pela máquina às
matérias primas”19
A indústria, tal como conhecia Marx, existiu "apenas na e pela
divisão
do trabalho"20 e o desenvolvimento técnico e burocrático
aguça estas
condições na medida em que determinados produtos
(não só as pesadas
maquinarias industriais) e instituições (não
só o Estado e suas
atribuições) requerem conhecimentos especializados. O
desenvolvimento
das forças produtivas e das instituições sociais,
provoca portanto uma
maximização da ética e práticas vinculadas
as especializações, regras,
limitações e conhecimentos funcionais. O trabalho
médio como divisor
comum dos fatores de produtividade, perde importância para o
trabalhador capacitado, que apesar de não ser significativo em
finais
do século XIX, aparece atualmente como figura central e perpetua
a
condição de separação entre produto e
produtor direto além de
subordinar cada vez mais funções ao aparato
tecnológico e institucional
do capitalismo.
A grande Indústria, como analisada por Marx em a "Ideologia alemã" trás uma nova fase da propriedade privada. Nesta fase somam-se, forças elementares para fins industriais, a maquinaria desenvolvida para a indústria e uma extensa divisão do trabalho. Este modelo perpetua-se como regra em grande parte das indústrias de hoje, porém há significativas mudanças em curso devido ao desenvolvimento tecnológico (principalmente no que se refere a mecânica, eletrônica e a informática) no campo da produção material e que terá tremenda influência no campo intelectual, espiritual e de significado cultural. Como inerente a este desenvolvimento, Marx aponta algumas tendências e razões que possibilitaram a perpetuação deste determinado sistema de produção e circulação de mercadorias e capital. A grande indústria universaliza a concorrência, fazendo com que os velhos direitos se modificassem a fim de preservar a "defesa na liberdade de comércio". Os meios de comunicação e o mercado mundial moderno são rapidamente desenvolvidos, trazendo com eles uma rápida circulação e submetendo o comércio ao tempo e ritmo da grande indústria. Cria a concentração de capitais aliado a transformação em capital industrial (e mais recentemente em capital financeiro). A premissa destas modificações na esfera da produção e intercâmbio é o sistema automático gerado pela maquinaria em desenvolvimento. Porém, este modo cria forças produtivas "para as quais a propriedade privada se tornou um grilhão" e daí a contradição que se estabelece dentro da produção capitalista avançada baseada na grande indústria.
“Ninguém sabe ainda a quem caberá no futuro
viver
nessa prisão, ou
se, no fim desse tremendo desenvolvimento, não surgirão
profetas
inteiramente novos, ou um vigoroso renascimento de velhos pensamentos e
idéias, ou ainda se nenhuma dessas duas – a eventualidade de uma
petrificação mecanizada caracterizada por essa convulsiva
espécie de
autojustificação. Nesse caso, os ‘os últimos
homens’ desse
desenvolvimento cultural poderiam ser designados como ‘especialistas
sem espírito, sensualistas sem coração, nulidades
que imaginam ter
atingido um nível de civilização nunca antes
alcançado’”
(Weber, Max – A ética protestante e o espírito do
capitalismo)
Característica do ocidente, a racionalidade, para
Weber,
está
expressa em diversas esferas da criação na vida
ocidental. Desde a
astronomia, matemática e geometria, passando pela
historiografia,
arquitetura e teorias políticas até a arte e a
literatura, a
racionalidade é um fenômeno típico de uma maneira
de pensar e aplicar
do que chamou de
civilização-ocidental-judaico-cristã. Diretamente
ligada a funções profissionais e técnicas, a
racionalidade cresceu e se
desenvolveu dentro das organizações e
instituições do moderno ocidente
de forma a criar e reproduzir especialistas atrelados a conceitos como
eficiência, rentabilidade, planejamento, eficácia,
balanço e otimização.
No período em que instala permanentemente a noção
de exploração
industrial, e no qual se tem o início da fábrica moderna,
Weber
considera os aperfeiçoamentos técnicos contribuintes
fundamentais do
processo de racionalização da produção. O
que significa dizer que o
movimento da técnica à racionalidade tem um
direcionamento da mecânica
para o método, ou seja, os instrumentos utilizados como
máquinas
contribuem para o modelo de produção racional, envolvendo
uma
modificação nos parâmetros de pensamento, conduta,
modos de organização
e planejamento e eficiência.21
O conceito de fábrica para Weber está ligado a um
desenvolvimento do
que ele denomina de “aparelhos”. Este desenvolvimento levou à
criação
das primeiras formas de produção fabril, notadamente a
máquina a vapor,
o tear mecânico e o processo geral de “mecanização
do trabalho” 22 Os
aparelhos, por sua vez são “instrumentos de trabalho que podiam
ser
utilizados como máquina”. Para ele,esta forma estaria a
serviço do
home, enquanto que na máquina moderna, o homem que está a
serviço dela.
Weber exemplifica uma situação na qual a idéia do
tear mecânico por
Cartwright em 1785, fez com que a produção de fios e
tecidos fosse
feita com rapidez utilizando-se de métodos modernos, racionais e
científicos. Segundo Weber foi “um dos primeiros inventores que
associaram a técnica à ciência e trataram o
problema do ponto de vista
teórico”.23
O objeto técnico, portanto, se mostra fundamental para uma
compreensão
do elo entre conduta racional e prática econômica
capitalística, que
corporificará sua ética – resultado de infinitas
variáveis, como afirma
Weber – em mecanismos de dominação materiais e
imateriais, tanto no
âmbito das condutas sociais quanto na sua produção
e consumo.
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www.midiaindependente.org
www.midiatatica.org
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www.nettime.org
www.projetometafora.org
www.rizoma.net
www.satmundi.com
www.tmcrew.org
www.uiowa.edu
www.waag.org
:: ANEXO 1 ::
“Every reasonably aware person of our time is aware of the obvious fact
that art can no longer be justified as a superior activity, or even as
a compensatory activity to which one might honorably devote oneself.
The reason for this deterioration is clearly the emergence of
productive forces that necessitate other production relations and a new
practice of life.”
Les Lèvres Nues #8 (May 1956).
Traduzido por Ken Knabb in www.bopsecrets.org
PRINCÍPIOS CAROS ÀS IDÉIAS NOS MEIOS TÁTICOS E QUE DIALOGARÃO COM AS TEORIAS SOCIOLÓGICAS COM AS QUAIS LIDAREMOS.
“detournement” – Palavra francesa cara aos situacionistas
significa
literalmente desvio, distorção,
desapropriação, uma coisa reorientada
em relação a sua proposta original. Idéia que
“consiste em tomar as
coisas dos inimigos para montar uma outra coisa, que ajude a combater o
inimigo”. Torna-se um fato potente se relacionado às
possibilidades
tecnológicas dos mecanismos de informação, que
permitem, a reprodução,
reapropriação e reutilização de determinado
material original. A
quantificação e codificação da
informação em sinais digitais aguçam
esta tendência na medida em que as relações de
pessoas com as obras
passam a ser “interativas”, sendo possível
alterações, modificações e
usurpações de material “original”. A
comunicação via rede faz com que
as propriedades imateriais passem a ser objetos de uso por parte dos
receptores.
“Subversão é um jogo possível pelo fato das coisas
poderem ser
desvalorizadas, cada elemento da cultura passada pode ser reinventado
ou fragmentado”24.
Diálogos: W. Benjamin sobre as possibilidades das obras na época de sua reprodução técnica, em que defende que a “fruição tátil” é necessária para uma maneira de percepção que altera o hábito dos receptores e abala a autoridade do original. As técnicas de reprodução modificam as recepções e se impõem como uma nova forma de arte; “a emancipação da obra de arte da existência parasitária que lhe era imposta por sua função ritual” – A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica
diy - do inglês “do it yourself” – princípio oposto ao de representatividade e mediação alienada que nos remete à ação direta do usuário nos e através dos meios individualizados e para ele disponibilizados. Pressupõe uma autonomia do produtor em relação à técnica do meio de produção além de uma alteração nas tradicionais relações entre produtores e receptores, já que as “operações dos usuários” não reproduzem as estratégias industriais da lógica capitalista, mas sim usam, manipulam e alteram o conteúdo de sua ordem (as mercadorias e as relações de produção).
Diálogos: Os usos da cultura e a discussão
sobre
cultura alta e baixa revelada principalmente pela escola Inglesa de
Birmingham
Weber e burocracia na modernidade. As possibilidades
tecnológicas
entram em conflito com o diagnóstico de
instituições herméticas e
hierarquizadas. O fazer e o produzir encontram outras formas de se
relacionarem com as formas tradicionais de Estado e Iniciativa Privada
baseados em critérios normativos ou de competência.
RE:Combinação - “Hoje se pode argumentar que o plágio é aceitável, até mesmo inevitável dada a natureza da existência pós-moderna com sua tecno-infra-estrutura. Numa cultura recombinante, o plágio é produtivo (...) é uma questão de reunir várias técnicas recortadas a fim de responder à onipresença dos transmissores que nos alimentam com seus discursos obsoletos (...) é uma questão de desacorrentar os códigos (sic).”25 Devido ao desenvolvimento da máquina de informação, o conceito de recombinação encontrou um marco fundamental. O prefixo RE aparece como alternativa de criação e apropriação numa sociedade que chegou ao limite de exploração e produção material. A sociedade pós-industrial parece incapaz de criar algo novo, e o avanço do progresso técnico ameaça e impossibilita a criatividade. A abundância de recursos, idéias e mercadorias usados e abandonados passa a fazer parte de um conceito de reapropriação de bens (materiais e espirituais) a fim de criar uma nova obra.
“Copyleft”- Em oposição ao Copyright, questiona a forma de controle sobre as produções intelectuais, trazendo à tona o dilema da propriedade artística (nos novos meios de informação). A aplicação mais notável deste conceito acontece nos computadores, que através da abertura de seus códigos-fonte, cria “Software Livres”26 para serem executados para qualquer propósito, sendo possível sua modificação, cópia, aperfeiçoamento e distribuição por qualquer um que maneje a linguagem técnica informática. As ações pelos computadores são centrais, não só pela possibilidade de junção com outros meios de comunicação (como textos, rádios, imagens), mas como um símbolo da opção (ou forma) anárquica que o movimento acredita que as redes de comunicação podem ter a partir da internet. A ausência da propriedade intelectual aparece como tática: “enunciado de dissimulação” ou “estratagema de camuflagem”. Os meios técnicos possibilitariam desta forma a “sabotagem da máquina comunicativa do poder” e uma tática tipo “cavalo de tróia”27, de utilização subversiva do campo do inimigo.
TAZ (Zona Autônoma Temporária) - Em contraposição às perspectivas revolucionárias de esquerda, a TAZ propõe zonas autônomas de usufruto imediato, ou seja, “momentos e espaços nos quais a liberdade não é apenas possível, mas existente”. Como uma crítica à característica de permanência das revoluções, prega a “prática de um nomadismo revolucionário” de influência anarquista como forma de propagar o “espírito experimentado no momento do levante”28.